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DESIGN / ESTRATÉGIA / TENDÊNCIAS 2026

O que a inteligência artificial não copia vira vantagem: por que autenticidade virou estratégia em marketing, design e arquitetura

Existe uma pergunta que passou a rondar toda reunião de briefing, todo prêmio de arquitetura e todo relatório de tendência esta semana: o que ainda vale alguma coisa quando qualquer imagem, qualquer texto e qualquer render podem ser gerados em segundos? A resposta que está se repetindo em lugares muito diferentes é a mesma. Vale o que não se copia.

 

 

O que mudou

Uma associação do setor de publicidade escolheu, pela primeira vez, duas palavras do ano em vez de uma: “autenticidade” e “IA agêntica”. Não é coincidência que as duas venham juntas. Depois de um ano de conteúdo gerado em escala, apenas 26% dos consumidores dizem preferir criador artificial a criador humano. A saturação não é mais hipótese, é o ambiente em que toda marca está competindo agora.

Numa cúpula recente de líderes de marketing, o diagnóstico foi direto: o cargo de diretor de marketing vive uma espécie de auge de relevância, com responsabilidade sobre lançamento de produto, governança de tecnologia e ética de marca reunidos numa função só. Mas o problema que ocupa essa cadeira hoje não é falta de conteúdo. É excesso dele. “Ruído de IA” virou o termo que esses próprios executivos usam para descrever o que impede a marca de ser notada.

 

Autenticidade na prática

O mesmo movimento aparece em outro canto do mercado: coleções recentes estão recuando do acabamento hiperpolido de imagem gerada por IA para mostrar processo manual visível, do estúdio ao ateliê. A leitura que fica é direta: perfeito demais começou a parecer impessoal, e até pouco confiável.

A resposta mais literal a essa tensão apareceu nesta semana num objeto pequeno. Uma fonte tipográfica foi desenhada para carregar duas mensagens ao mesmo tempo: uma legível para o olho humano, outra que induz ao erro os sistemas de raspagem automática de dados. É tipografia como gesto de defesa, um jeito de dizer que existe informação que só deveria valer para quem lê de verdade.

 

Legenda: Decoy Font, criada pela Mixfont: uma tipografia com uma mensagem para o olho humano e outra para sistemas de IA. Foto: Mixfont, via Dezeen.

 

Por que isso muda a estratégia

O problema é que autenticidade sempre foi tratada como discurso de marca, não como decisão de processo. Fica fácil escrever “somos autênticos” num manifesto e continuar produzindo do jeito mais rápido e mais barato disponível, que hoje é justamente aquele a que qualquer concorrente também tem acesso.

Há três mudanças concretas que separam quem só fala de autenticidade de quem constrói vantagem nela. A primeira é tornar visível o processo, não só o resultado: mostrar a mão, o rascunho, a tentativa errada, em vez de entregar só a peça final polida. A segunda é tratar a informação que só a marca tem e a voz humana por trás dela como ativos que valem a pena proteger, o tipo de coisa que um concorrente não reproduz só clonando um prompt. A terceira é aceitar que isso custa mais tempo e mais gente, e escolher onde vale pagar esse preço em vez de aplicar em tudo.

 

“O que a inteligência artificial reproduz bem virou commodity.
O que ela não reproduz virou posicionamento.”

 

O que isso tem a ver com arquitetura

Às vésperas de um grande congresso internacional de arquitetura, diretores das principais premiações do setor colocaram em discussão pública se um prêmio deveria continuar sendo só reconhecimento de vitrine ou passar a carregar responsabilidade sobre os desafios sociais e ambientais que a obra de fato enfrenta. É a mesma pergunta do marketing, só que aplicada ao edifício: o prêmio bonito de mostrar é fácil de replicar em qualquer portfólio. O compromisso real com o lugar onde o prédio existe não é.

Um exemplo concreto do lado oposto do espectro, o da obra construída, ajuda a ilustrar isso: uma sala de concerto revestida em cobre, em Évian, na França, projetada para funcionar “como um instrumento musical”. Não é uma caixa acústica genérica com bom acabamento. É uma estrutura pensada para vibrar e responder ao som de um jeito que só aquele edifício, naquele lugar, faz.

 

Legenda: La Source Vive, sala de concerto revestida em cobre concluída em Évian, França, projetada para funcionar como um instrumento musical. Foto: Salem Mostefaoui, cortesia PCA-Stream, via Dezeen.

 

A tensão entre autenticidade e encenação

Existe um risco real nisso: autenticidade também virou palavra de propaganda, e uma marca pode encenar processo manual do mesmo jeito raso que antes encenava perfeição. Mostrar um “bastidor” cuidadosamente roteirizado não é mais honesto do que mostrar o produto final: só usa um código visual diferente para vender a mesma coisa.

A diferença entre autenticidade de verdade e encenação de autenticidade está em saber se aquilo resiste à cópia. Um bastidor genérico, qualquer concorrente reproduz com o mesmo esforço de sempre. Um processo, uma voz, uma decisão de projeto que carrega a marca de quem fez,  isso nenhum sistema automatizado replica sem replicar também a origem.

 

O que fica

No fundo, o que essas histórias recentes têm em comum não é tecnologia. É uma correção de preço. Durante anos, o que parecia mais valioso era o que se destacava mais rápido: a imagem mais chamativa, o prêmio mais vistoso, a campanha mais viral. Agora que qualquer um desses três pode ser produzido em escala industrial por uma máquina, o valor migrou para o que resiste a essa escala.

Legenda: Interior da La Source Vive: paredes de gesso cru esculpidas com relevos ondulados que avançam até oito centímetros na altura da plateia para difundir o som. A superfície não decora a sala — ela é o instrumento. Foto: Salem Mostefaoui, cortesia PCA-Stream, via Dezeen.

 

“A vantagem competitiva não é quem produz mais rápido.
É quem produz algo que, se sumisse, faria falta.”

 

Referências

[1] ASSOCIATION OF NATIONAL ADVERTISERS. “ANA Selects Agentic AI and Authenticity as 2025 Marketing Words of the Year.” ANA, dez. 2025. Disponível em: ana.net.

[2] FORBES. “Marketing Trends In Motion: How 2026’s Top CMOs Are Driving Influence.” Forbes, 25 jun. 2026. Disponível em: forbes.com/sites/slmashelbayah/2026/06/25/marketing-trends-in-motion-how-2026s-top-cmos-are-driving-influence.

[3] DEZEEN. “Decoy Font protects messages from being read by AI.” Dezeen, 31 jul. 2026. Disponível em: dezeen.com/2026/07/31/decoy-font-ai-mixfont.

[4] ARCHDAILY. “Architecture Awards Must Evolve: A Debate on Their Role and Responsibility at the UIA World Congress 2026.” ArchDaily, 16 jun. 2026. Disponível em: archdaily.com/1042455.